BAGDÁ – MEMÓRIAS DE UMA EXPERIÊNCIA EXTRAORDINÁRIA EM
COMÉRCIO EXTERIOR.
Lendo recentemente algumas notícias sobre a retomada
de negócios entre Brasil e Iraque e a recente visita de amigos iraquianos que
hoje residem em Londres, confesso que me senti motivado a resgatar um pouco da
história e fazer este registro sobre o período 1987-1992.
Bagdá – Rio Tigre
Como Diretor de Exportação, tive a oportunidade de
visitar e negociar em 35 países. O Iraque foi certamente uma das experiências
mais ricas de toda minha vida profissional.
Do ponto de vista corporativo, ouvi falar pela
primeira vez em Iraque por volta de 1987. O Brasil estava sob o governo de José
Sarney e a Petrobrás, através de sua trading Interbrás, importava petróleo
daquele país e efetuava os pagamentos com produtos brasileiros tais como
automóveis, caminhões, carne, frango, armamentos, enfim, tudo que podíamos
exportar, era usado para pagar o petróleo no sistema chamado “barter trade”.
Naquela época, o Iraque era aliado dos EUA e o inimigo
comum era o Irã que tinha o poderoso Aiatolá Khomeini como principal líder. Irã
e Iraque viviam em permanente conflito e o então presidente, Saddam Hussein,
pouco conhecido até então, recebia todo o apoio dos americanos. Vestia-se de
terno e gravata, fumava elegantemente, falava inglês fluente e tinha sua foto
obrigatoriamente em todos os estabelecimentos, fosse um hotel, loja ou
ministério. O país era extremamente organizado, seguro e disciplinado. Com o
tempo fomos aprendendo que Saddam dirigia seus subordinados com mão de ferro.
A Vokswagen liderava o processo de exportações da
indústria automotiva brasileira ao Iraque. Wolfgang Sauer, um dos mais
brilhantes presidentes da empresa, havia fechado acordo para exportar 170.000
veículos Passat ao Iraque e nós, que fabricávamos tratores e colheitadeiras
agrícolas, seguimos o exemplo e começamos a exportar nossos produtos, sempre
coordenando as operações com a Interbrás. Norberto Farina, então nosso
presidente, havia viajado com outros presidentes de empresas brasileiras ao
Oriente Médio e voltou entusiasmado com as oportunidades que lá existiam.
Lembro-me de viajar em seguida via Frankfurt a Bagdá junto com uma delegação
brasileira, liderada pelo presidente da Interbrás. Chegamos na madrugada, mas a
passagem pela alfândega foi tranquila e a infraestrutura iraquiana, impecável.
Rapidamente, estávamos a caminho do Al-Rashid, um dos hotéis mais ricos e
extraordinários que conheci. Só para se ter uma ideia, as fechaduras das portas
dos quartos assim como as torneiras nos banheiros eram em madrepérola.
Eu imaginava que as negociações seriam fáceis, afinal
éramos um importante cliente do petróleo. Longe disso, os iraquianos, sempre
vestidos com uniformes militares, marcavam reunião para as 16:00 horas e
nos deixavam esperando por 4 horas para só então começarem as negociações
oferecendo um absurdo preço baixo pelos nossos produtos. Horas e horas de
reunião e nada de fechar negócio. No dia seguinte, a história se repetia.
Reuniões sempre à tarde, pois, no dia anterior, nos davam canseira até altas
horas. Tudo recomeçava do zero, com novos representantes do governo que diziam
não saber nada do que tinha acontecido no dia anterior repetindo a mesma
estratégia. Com o tempo, aprendemos que tudo era tática de negociação e os
iraquianos, extraordinários negociadores. Eles sabiam todos os detalhes do
nosso voo de volta ao Brasil e com isso estendiam o processo até o último dia
quando nós, exaustos e desesperados por fechar algum negócio, acabaríamos
aceitando as condições deles. Ao longo de diversas viagens e inúmeras reuniões
fomos também aprimorando nossas táticas, mas o aprendizado foi longo e
exaustivo.
Como nossas manhãs eram livres, passeávamos pela
cidade. Bagdá era dividida em duas partes: a velha, que conservava toda a
história que conhecemos das Mil E Uma Noites e a nova, com arquitetura moderna,
prédios luxuosos e bairros que não deviam nada a Beverly Hills, construídos com
os petrodólares e onde moravam americanos, europeus, brasileiros e a alta cúpula
do comando iraquiano. Tudo obviamente debaixo dos constantes ataques iranianos.
Lembro-me de visitar um executivo que morava com sua família num destes bairros
e nos contou que uma das brincadeiras das crianças no dia seguinte aos
bombardeios, sempre noturnos, era procurar nas ruas as balas e projéteis
despejados pelos aviões inimigos. Outra característica que chamava a atenção
eram as buzinas, acessório dos mais importantes na manutenção dos veículos pois
sem buzinas os iraquianos não sabiam dirigir. Que barulheira!
Com o passar do tempo, um dos nossos passeios
habituais passou a ser o Souk, mercado central. Curiosamente, ao negociar a
compra de tapetes, pinturas e antiguidades treinávamos a nós mesmos para as
reuniões que teríamos a tarde. Era uma verdadeira “Universidade da Negociação”
onde a paciência, o blefe, propostas absurdas, brigas e discussões teatrais
eram parte da cultura árabe que fomos incorporando e nos aprimorando a cada
negociação. Aprendi por exemplo que os iraquianos consideravam que a evolução
do ser humano ocorre de duas formas: por meio da Guerra onde treinavam a
coragem e a estratégia e pela Negociação onde desenvolviam a inteligência
e a paciência.
Fomos montando uma pequena equipe de trabalho formada
em grande parte por gaúchos originários de nossas fábricas no Rio Grande do
Sul. A cultura gaúcha é muito forte e com o tempo foi criado um CTG – Centro de
Tradições Gaúchas - no Iraque. O pessoal levou a gaita (acordeão) e as músicas
do folclore serviam para aliviar a saudade da família nos longos períodos que
passávamos naquele país, juntamente com o “fogo de chão” onde era assado o
carneiro. A cuia e a bomba com um bom chimarrão completavam estes churrascos
que aconteciam com frequência.
Os contratos de exportação de tratores e
colheitadeiras completos foram evoluindo para produtos SKD’s (semi knock down)
e posteriormente CKD’s (complete knock down) de tal forma que as máquinas foram
gradativamente sendo montadas no Iraque e com o tempo agregando alguns
componentes feitos no país. Este processo deu origem a uma verdadeira fábrica
dentro do complexo militar conhecido como Iskanderia, 60 quilômetros ao sul de
Bagdá, comandado pelo Sr. Nazar Al-Qaseer, uma espécie de general, que
mais tarde seria o prefeito da cidade e posteriormente Ministro da Irrigação do
governo Saddam.
Um episódio que ficou conhecido com o General Nazar
ocorreu quando nosso gerente da fábrica estava enfrentando dificuldades em
alcançar a produção diária. Tínhamos um compromisso de entregar um certo número
de tratores por dia e isso envolvia treinar os trabalhadores iraquianos para
executar a produção. Nossa equipe era pequena e formada principalmente de
instrutores, mas o trabalho de montagem deveria ser feito pelos trabalhadores
locais. Ocorre que os iraquianos qualificados para o trabalho foram convocados
para a guerra e repostos por trabalhadores não acostumados com sistema de
emprego, turnos de trabalho e remuneração mensal. Isso fazia com que, ao final
do mês, quando recebiam o salário, eles simplesmente abandonavam a fábrica e
iam para casa; desapareciam por um tempo. Quando o dinheiro acabava, eles
voltavam. Claro que era impossível administrar a linha de montagem e tocar a
fábrica com esta mão de obra itinerante. Nosso gerente foi então
conversar com o Comandante tentando explicar o que estava acontecendo.
Curiosamente o Sr. Nazar respondeu então:
- Vamos lá na linha de montagem ver o que está
acontecendo.
La se foram os dois para o chão de fábrica extremamente
sujo e irregular. Na verdade, um galpão do exército iraquiano.
Chegando no local, o general chamou um dos
trabalhadores e disse:
- Deite-se no chão, rasteje até a porta e depois volte
aqui. E lá se foi o pobre rapaz, naquela poeira, rastejando uns duzentos metros
até a porta e voltando do mesmo jeito. Todo sujo, levantou-se, bateu
continência ao General que o liberou. Voltando-se então ao nosso gerente, o
General disse:
- Veja que os iraquianos são disciplinados e cumprem
as ordens. Vocês é que não sabem comandar. Virou as costas e foi embora.
Diante desta situação e considerando que tínhamos que
cumprir o contrato de montagem, não tivemos outra alternativa senão contratar
trabalhadores egípcios que estavam no Iraque para fazer o trabalho daqueles que
estavam lutando na guerra contra o Irã. Os egípcios eram mais
disciplinados para cumprir o projeto enquanto procurávamos treinar os
iraquianos. Um fato curioso era a balança para poder entrar na fábrica. Se o
funcionário excedesse um determinado peso acabava sendo inicialmente punido e
caso não emagrecesse perdia o emprego.
Uma pessoa da maior importância no projeto do Iraque
foi o Embaixador Paulo de Tarso Flecha de Lima. Era querido por todos e
respeitado pelo governo iraquiano agindo como um facilitador nas relações entre
os dois países. Nossa embaixada era uma espécie de quartel general onde
trabalhávamos diariamente. A secretária do Sr. Paulo de Tarso no Iraque, Sra.
Farida Aljibouri, uma pessoa extraordinária – hoje mora com sua família em Londres
- estava sempre pronta a nos ajudar, fazer contatos, preparar documentos, enfim
facilitar a nossa vida. Seu marido, engenheiro Saad Aljibouri acabou se
tornando uma espécie de trader nos ajudando nas reuniões de trabalho com a
equipe iraquiana. Comunicação era sempre um grande desafio. Falar com nossa
matriz no Brasil somente era possível por meio de telex e as famosas fitas
amarelas perfuradas. Não havia telefone tipo DDI pois tudo era rigorosamente
controlado pelo governo. Lembro-me que uma vez, buscando uma máquina de telex,
desci no subsolo do Hotel Al-Rashid e acabei entrando indevidamente em uma sala
onde estavam algumas pessoas com fones de ouvido me dando a impressão de escuta
de tudo o que acontecia nos quartos do hotel, restaurante e salas de reunião.
Confuso e assustado, pedi desculpas, mas me escoltaram até a recepção
tipo num clima de “não faça mais isso”.
Com o tempo, fomos nos familiarizando com o país, as
pessoas, as comidas – o Masgouf, típica forma iraquiana de assar com pedras
quentes o peixe pescado no rio Tigre, era uma iguaria servida nos principais
restaurantes e comido com a mão; acabou tornando-se nosso prato preferido.
Fomos conhecendo mais e mais do país e principalmente Bagdá fazendo amigos e o
Iraque passou a ser uma extensão de nossa empresa. Éramos convidados para
eventuais happy hours na fábrica com os comandantes e o clima era extremamente
cordial apesar das diferenças de cultura. Lembro-me de um amigo que mostrou a
fotografia da esposa a um iraquiano e ficou surpreso quando este naturalmente
lhe mostrou a foto de suas quatro esposas. Aprendemos então que era legal
ter até quatro esposas, mas o homem deveria ser financeiramente e fisicamente
capaz além de ter a autorização e aceitação da primeira esposa. Obviamente esta
situação além de cultural, decorria da morte de muitos homens na guerra.
De 1988 a 1990 a vida seguia normal. Embora
trabalhasse em uma base militar e muito próximo do alto comando, nunca tive a
oportunidade de conhecer pessoalmente Saddam Hussein. Havia muita história a
respeito dos hábitos exóticos do presidente. Um deles é de que ele nunca dormia
duas noites no mesmo lugar. Por motivos de segurança estava em constante
mudança.
Fomos convidados para a inauguração do “Saddam Hussein
River”, uma obra extraordinária entre os rios Tigre e Eufrates. O projeto,
desenvolvido pelos chineses, era um canal entre os dois rios para evitar a
salinização das águas. Uma obra extraordinária inaugurada num evento que
envolveu boa parte da população. Diziam que Saddam iria estar presente. Na data
e hora estávamos no local, uma espécie de tribuna de honra e toda aquela
expectativa de conhecer o presidente. A certa altura, um enorme helicóptero se
aproxima, dá duas voltas sobre a população que se aglomerava no local e
finalmente pousa próximo. Longa espera e o helicóptero não abre as portas; pelo
contrário, levanta voo, dá mais algumas voltas e pousa novamente. Alvoroço,
expectativa, gritaria, mas o helicóptero decola e vai embora. Todos diziam que
Saddam estava a bordo, mas jamais saberemos.
Nosso projeto no Iraque chegou a ter 30 brasileiros no
país; no final, a fábrica em Skanderia já estava bem estruturada e exportamos
3.000 tratores e 800 colheitadeiras. Um dos maiores projetos de exportação da
empresa naquele período. Infelizmente, a decisão de Saddam Hussein em invadir o
Kuwait (02/08/1990) e declarar o emirado como uma província iraquiana, acabou
levando à guerra com os Estados Unidos e 31 países aliados na operação
“Tempestade no Deserto” em 1991, que destruiu completamente todo o trabalho que
havíamos realizado.
Com a ajuda do Ministro Paulo de Tarso, conseguimos
retirar nossos funcionários que estavam lá. Da mesma forma os amigos, Saad e
Farida também foram retirados e transferidos para trabalhar na embaixada
brasileira na Jordânia.
Alguns meses depois (28/02/1991) Saddam se rendeu, mas
já era tarde: o país estava destruído.
Entre a primeira guerra do Golfo em 1991 e a segunda,
em 2003, tive a oportunidade de retornar ao Iraque algumas vezes. Não haviam
mais voos para Bagdá. Junto com Norberto Farina, fomos à Jordânia onde o
embaixador nos deu uma bandeira do Brasil para hastearmos na embaixada em Bagdá
um ano após o fim da guerra (06/01/1992).
Numa Van alugada com motorista iraquiano, atravessamos
o deserto, de Amman até Bagdá, numa viagem de 12 horas pela extraordinária
freeway construída pela Mendes Junior e que muitas vezes foi utilizada como
pista de pouso de aeronaves militares. Entretanto, foi um choque chegar em
Bagdá e encontrar tudo destruído, incluindo infraestrutura de água e luz, sem a
menor chance de retomar as operações. Fomos à Embaixada que estava fechada, mas
conseguimos hastear a bandeira brasileira. Ao olhar para o lado vimos que o
motorista que nos acompanhava estava chorando. Jamais esquecerei a cena.
Voltei ainda mais duas vezes a Bagdá pela tal freeway
numa tentativa de vender peças de reposição aos nossos tratores: em abril e
dezembro de 1992. Infelizmente, não havia mais possibilidade de negócios. O
país pós-guerra estava sob embargo da ONU. Saddam resistiu ainda por 10 anos e,
somente em 2003, veio a ser preso e condenado. Existem diversas matérias no
Google que registram toda esta história. A Interbrás, que prestou um belo
serviço na época ao Brasil, foi extinta pelo governo Collor.
Meu objetivo, como disse no início deste
relato, é deixar um registro sobre esta história do ponto de vista das
relações comerciais que tivemos com o Iraque. Como em todos os países que
visitei, encontrei pessoas maravilhosas, negociadores inteligentes e lembranças
de um período extraordinário de grande aprendizado.
Saad e Farida nos visitaram recentemente. Entre tantas
possibilidades de férias na Europa, queriam rever o Brasil e reencontrar os
amigos. A foto abaixo mostra um evento que fizemos para homenageá-los.
Importante registrar que na época do projeto Iraque eles receberam do
Presidente da República do Brasil, por recomendação do embaixador Paulo de
Tarso, a comenda da Ordem do Rio Branco.
Paulo de Tarso Flecha de Lima, um dos nossos mais
brilhantes diplomatas, segue em Brasília, trabalhando em seu escritório.
Durante a visita de Farida e Saad ao Brasil, tivemos a oportunidade de fazer
contato com ele que imediatamente lembrou-se do casal e da história ocorrida há
28 anos atrás.
Foram muitos os colaboradores que trabalharam no
projeto Iraque. Alguns aparecem na foto abaixo, mas não vou citar nomes para
não incorrer no erro de eventualmente esquecer alguém. Faço aqui um
agradecimento especial aqueles que me ajudaram a resgatar estas memórias. Tenho
certeza o projeto Iraque continua na mente e coração de todos nós.
Sukran!
(Obrigado)
Waldey Sanchez








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