domingo, 2 de setembro de 2018


BAGDÁ – MEMÓRIAS DE UMA EXPERIÊNCIA EXTRAORDINÁRIA EM COMÉRCIO EXTERIOR.


Lendo recentemente algumas notícias sobre a retomada de negócios entre Brasil e Iraque e a recente visita de amigos iraquianos que hoje residem em Londres, confesso que me senti motivado a resgatar um pouco da história e fazer este registro sobre o período 1987-1992.

          Bagdá – Rio Tigre


Como Diretor de Exportação, tive a oportunidade de visitar e negociar em 35 países. O Iraque foi certamente uma das experiências mais ricas de toda minha vida profissional.  

Do ponto de vista corporativo, ouvi falar pela primeira vez em Iraque por volta de 1987. O Brasil estava sob o governo de José Sarney e a Petrobrás, através de sua trading Interbrás, importava petróleo daquele país e efetuava os pagamentos com produtos brasileiros tais como automóveis, caminhões, carne, frango, armamentos, enfim, tudo que podíamos exportar, era usado para pagar o petróleo no sistema chamado “barter trade”.

Naquela época, o Iraque era aliado dos EUA e o inimigo comum era o Irã que tinha o poderoso Aiatolá Khomeini como principal líder. Irã e Iraque viviam em permanente conflito e o então presidente, Saddam Hussein, pouco conhecido até então, recebia todo o apoio dos americanos. Vestia-se de terno e gravata, fumava elegantemente, falava inglês fluente e tinha sua foto obrigatoriamente em todos os estabelecimentos, fosse um hotel, loja ou ministério. O país era extremamente organizado, seguro e disciplinado. Com o tempo fomos aprendendo que Saddam dirigia seus subordinados com mão de ferro.

A Vokswagen liderava o processo de exportações da indústria automotiva brasileira ao Iraque. Wolfgang Sauer, um dos mais brilhantes presidentes da empresa, havia fechado acordo para exportar 170.000 veículos Passat ao Iraque e nós, que fabricávamos tratores e colheitadeiras agrícolas, seguimos o exemplo e começamos a exportar nossos produtos, sempre coordenando as operações com a Interbrás. Norberto Farina, então nosso presidente, havia viajado com outros presidentes de empresas brasileiras ao Oriente Médio e voltou entusiasmado com as oportunidades que lá existiam. Lembro-me de viajar em seguida via Frankfurt a Bagdá junto com uma delegação brasileira, liderada pelo presidente da Interbrás. Chegamos na madrugada, mas a passagem pela alfândega foi tranquila e a infraestrutura iraquiana, impecável. Rapidamente, estávamos a caminho do Al-Rashid, um dos hotéis mais ricos e extraordinários que conheci. Só para se ter uma ideia, as fechaduras das portas dos quartos assim como as torneiras nos banheiros eram em madrepérola.

Eu imaginava que as negociações seriam fáceis, afinal éramos um importante cliente do petróleo. Longe disso, os iraquianos, sempre vestidos com uniformes militares, marcavam reunião para as 16:00 horas e nos deixavam esperando por 4 horas para só então começarem as negociações oferecendo um absurdo preço baixo pelos nossos produtos. Horas e horas de reunião e nada de fechar negócio. No dia seguinte, a história se repetia. Reuniões sempre à tarde, pois, no dia anterior, nos davam canseira até altas horas. Tudo recomeçava do zero, com novos representantes do governo que diziam não saber nada do que tinha acontecido no dia anterior repetindo a mesma estratégia. Com o tempo, aprendemos que tudo era tática de negociação e os iraquianos, extraordinários negociadores. Eles sabiam todos os detalhes do nosso voo de volta ao Brasil e com isso estendiam o processo até o último dia quando nós, exaustos e desesperados por fechar algum negócio, acabaríamos aceitando as condições deles. Ao longo de diversas viagens e inúmeras reuniões fomos também aprimorando nossas táticas, mas o aprendizado foi longo e exaustivo.

Como nossas manhãs eram livres, passeávamos pela cidade. Bagdá era dividida em duas partes: a velha, que conservava toda a história que conhecemos das Mil E Uma Noites e a nova, com arquitetura moderna, prédios luxuosos e bairros que não deviam nada a Beverly Hills, construídos com os petrodólares e onde moravam americanos, europeus, brasileiros e a alta cúpula do comando iraquiano. Tudo obviamente debaixo dos constantes ataques iranianos. Lembro-me de visitar um executivo que morava com sua família num destes bairros e nos contou que uma das brincadeiras das crianças no dia seguinte aos bombardeios, sempre noturnos, era procurar nas ruas as balas e projéteis despejados pelos aviões inimigos. Outra característica que chamava a atenção eram as buzinas, acessório dos mais importantes na manutenção dos veículos pois sem buzinas os iraquianos não sabiam dirigir. Que barulheira!

Com o passar do tempo, um dos nossos passeios habituais passou a ser o Souk, mercado central. Curiosamente, ao negociar a compra de tapetes, pinturas e antiguidades treinávamos a nós mesmos para as reuniões que teríamos a tarde. Era uma verdadeira “Universidade da Negociação” onde a paciência, o blefe, propostas absurdas, brigas e discussões teatrais eram parte da cultura árabe que fomos incorporando e nos aprimorando a cada negociação. Aprendi por exemplo que os iraquianos consideravam que a evolução do ser humano ocorre de duas formas: por meio da Guerra onde treinavam a coragem e a estratégia e pela Negociação onde desenvolviam a inteligência e a paciência.

Fomos montando uma pequena equipe de trabalho formada em grande parte por gaúchos originários de nossas fábricas no Rio Grande do Sul. A cultura gaúcha é muito forte e com o tempo foi criado um CTG – Centro de Tradições Gaúchas - no Iraque. O pessoal levou a gaita (acordeão) e as músicas do folclore serviam para aliviar a saudade da família nos longos períodos que passávamos naquele país, juntamente com o “fogo de chão” onde era assado o carneiro. A cuia e a bomba com um bom chimarrão completavam estes churrascos que aconteciam com frequência.

Os contratos de exportação de tratores e colheitadeiras completos foram evoluindo para produtos SKD’s (semi knock down) e posteriormente CKD’s (complete knock down) de tal forma que as máquinas foram gradativamente sendo montadas no Iraque e com o tempo agregando alguns componentes feitos no país. Este processo deu origem a uma verdadeira fábrica dentro do complexo militar conhecido como Iskanderia, 60 quilômetros ao sul de Bagdá, comandado pelo Sr. Nazar Al-Qaseer, uma espécie de general, que mais tarde seria o prefeito da cidade e posteriormente Ministro da Irrigação do governo Saddam.

Um episódio que ficou conhecido com o General Nazar ocorreu quando nosso gerente da fábrica estava enfrentando dificuldades em alcançar a produção diária. Tínhamos um compromisso de entregar um certo número de tratores por dia e isso envolvia treinar os trabalhadores iraquianos para executar a produção. Nossa equipe era pequena e formada principalmente de instrutores, mas o trabalho de montagem deveria ser feito pelos trabalhadores locais. Ocorre que os iraquianos qualificados para o trabalho foram convocados para a guerra e repostos por trabalhadores não acostumados com sistema de emprego, turnos de trabalho e remuneração mensal. Isso fazia com que, ao final do mês, quando recebiam o salário, eles simplesmente abandonavam a fábrica e iam para casa; desapareciam por um tempo. Quando o dinheiro acabava, eles voltavam. Claro que era impossível administrar a linha de montagem e tocar a fábrica com esta mão de obra itinerante.  Nosso gerente foi então conversar com o Comandante tentando explicar o que estava acontecendo. Curiosamente o Sr. Nazar respondeu então:

 - Vamos lá na linha de montagem ver o que está acontecendo.

La se foram os dois para o chão de fábrica extremamente sujo e irregular. Na verdade, um galpão do exército iraquiano.

Chegando no local, o general chamou um dos trabalhadores e disse:

- Deite-se no chão, rasteje até a porta e depois volte aqui. E lá se foi o pobre rapaz, naquela poeira, rastejando uns duzentos metros até a porta e voltando do mesmo jeito. Todo sujo, levantou-se, bateu continência ao General que o liberou. Voltando-se então ao nosso gerente, o General disse:

- Veja que os iraquianos são disciplinados e cumprem as ordens. Vocês é que não sabem comandar. Virou as costas e foi embora.

Diante desta situação e considerando que tínhamos que cumprir o contrato de montagem, não tivemos outra alternativa senão contratar trabalhadores egípcios que estavam no Iraque para fazer o trabalho daqueles que estavam lutando na guerra contra o Irã.  Os egípcios eram mais disciplinados para cumprir o projeto enquanto procurávamos treinar os iraquianos. Um fato curioso era a balança para poder entrar na fábrica. Se o funcionário excedesse um determinado peso acabava sendo inicialmente punido e caso não emagrecesse perdia o emprego.

Uma pessoa da maior importância no projeto do Iraque foi o Embaixador Paulo de Tarso Flecha de Lima. Era querido por todos e respeitado pelo governo iraquiano agindo como um facilitador nas relações entre os dois países. Nossa embaixada era uma espécie de quartel general onde trabalhávamos diariamente. A secretária do Sr. Paulo de Tarso no Iraque, Sra. Farida Aljibouri, uma pessoa extraordinária – hoje mora com sua família em Londres - estava sempre pronta a nos ajudar, fazer contatos, preparar documentos, enfim facilitar a nossa vida. Seu marido, engenheiro Saad Aljibouri acabou se tornando uma espécie de trader nos ajudando nas reuniões de trabalho com a equipe iraquiana. Comunicação era sempre um grande desafio. Falar com nossa matriz no Brasil somente era possível por meio de telex e as famosas fitas amarelas perfuradas. Não havia telefone tipo DDI pois tudo era rigorosamente controlado pelo governo. Lembro-me que uma vez, buscando uma máquina de telex, desci no subsolo do Hotel Al-Rashid e acabei entrando indevidamente em uma sala onde estavam algumas pessoas com fones de ouvido me dando a impressão de escuta de tudo o que acontecia nos quartos do hotel, restaurante e salas de reunião.  Confuso e assustado, pedi desculpas, mas me escoltaram até a recepção tipo num clima de “não faça mais isso”.

Com o tempo, fomos nos familiarizando com o país, as pessoas, as comidas – o Masgouf, típica forma iraquiana de assar com pedras quentes o peixe pescado no rio Tigre, era uma iguaria servida nos principais restaurantes e comido com a mão; acabou tornando-se nosso prato preferido. Fomos conhecendo mais e mais do país e principalmente Bagdá fazendo amigos e o Iraque passou a ser uma extensão de nossa empresa. Éramos convidados para eventuais happy hours na fábrica com os comandantes e o clima era extremamente cordial apesar das diferenças de cultura. Lembro-me de um amigo que mostrou a fotografia da esposa a um iraquiano e ficou surpreso quando este naturalmente lhe mostrou a foto de suas quatro esposas.  Aprendemos então que era legal ter até quatro esposas, mas o homem deveria ser financeiramente e fisicamente capaz além de ter a autorização e aceitação da primeira esposa. Obviamente esta situação além de cultural, decorria da morte de muitos homens na guerra.

De 1988 a 1990 a vida seguia normal. Embora trabalhasse em uma base militar e muito próximo do alto comando, nunca tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Saddam Hussein. Havia muita história a respeito dos hábitos exóticos do presidente. Um deles é de que ele nunca dormia duas noites no mesmo lugar. Por motivos de segurança estava em constante mudança.







Fomos convidados para a inauguração do “Saddam Hussein River”, uma obra extraordinária entre os rios Tigre e Eufrates. O projeto, desenvolvido pelos chineses, era um canal entre os dois rios para evitar a salinização das águas. Uma obra extraordinária inaugurada num evento que envolveu boa parte da população. Diziam que Saddam iria estar presente. Na data e hora estávamos no local, uma espécie de tribuna de honra e toda aquela expectativa de conhecer o presidente. A certa altura, um enorme helicóptero se aproxima, dá duas voltas sobre a população que se aglomerava no local e finalmente pousa próximo. Longa espera e o helicóptero não abre as portas; pelo contrário, levanta voo, dá mais algumas voltas e pousa novamente. Alvoroço, expectativa, gritaria, mas o helicóptero decola e vai embora. Todos diziam que Saddam estava a bordo, mas jamais saberemos.



  
Nosso projeto no Iraque chegou a ter 30 brasileiros no país; no final, a fábrica em Skanderia já estava bem estruturada e exportamos 3.000 tratores e 800 colheitadeiras. Um dos maiores projetos de exportação da empresa naquele período. Infelizmente, a decisão de Saddam Hussein em invadir o Kuwait (02/08/1990) e declarar o emirado como uma província iraquiana, acabou levando à guerra com os Estados Unidos e 31 países aliados na operação “Tempestade no Deserto” em 1991, que destruiu completamente todo o trabalho que havíamos realizado.



Com a ajuda do Ministro Paulo de Tarso, conseguimos retirar nossos funcionários que estavam lá. Da mesma forma os amigos, Saad e Farida também foram retirados e transferidos para trabalhar na embaixada brasileira na Jordânia.

Alguns meses depois (28/02/1991) Saddam se rendeu, mas já era tarde: o país estava destruído.



Entre a primeira guerra do Golfo em 1991 e a segunda, em 2003, tive a oportunidade de retornar ao Iraque algumas vezes. Não haviam mais voos para Bagdá. Junto com Norberto Farina, fomos à Jordânia onde o embaixador nos deu uma bandeira do Brasil para hastearmos na embaixada em Bagdá um ano após o fim da guerra (06/01/1992).

Numa Van alugada com motorista iraquiano, atravessamos o deserto, de Amman até Bagdá, numa viagem de 12 horas pela extraordinária freeway construída pela Mendes Junior e que muitas vezes foi utilizada como pista de pouso de aeronaves militares. Entretanto, foi um choque chegar em Bagdá e encontrar tudo destruído, incluindo infraestrutura de água e luz, sem a menor chance de retomar as operações. Fomos à Embaixada que estava fechada, mas conseguimos hastear a bandeira brasileira. Ao olhar para o lado vimos que o motorista que nos acompanhava estava chorando. Jamais esquecerei a cena. 


Voltei ainda mais duas vezes a Bagdá pela tal freeway numa tentativa de vender peças de reposição aos nossos tratores: em abril e dezembro de 1992. Infelizmente, não havia mais possibilidade de negócios. O país pós-guerra estava sob embargo da ONU. Saddam resistiu ainda por 10 anos e, somente em 2003, veio a ser preso e condenado. Existem diversas matérias no Google que registram toda esta história. A Interbrás, que prestou um belo serviço na época ao Brasil, foi extinta pelo governo Collor.


Meu objetivo, como disse no início deste relato, é deixar um registro sobre esta história do ponto de vista das relações comerciais que tivemos com o Iraque. Como em todos os países que visitei, encontrei pessoas maravilhosas, negociadores inteligentes e lembranças de um período extraordinário de grande aprendizado.


Saad e Farida nos visitaram recentemente. Entre tantas possibilidades de férias na Europa, queriam rever o Brasil e reencontrar os amigos. A foto abaixo mostra um evento que fizemos para homenageá-los. Importante registrar que na época do projeto Iraque eles receberam do Presidente da República do Brasil, por recomendação do embaixador Paulo de Tarso, a comenda da Ordem do Rio Branco.
Paulo de Tarso Flecha de Lima, um dos nossos mais brilhantes diplomatas, segue em Brasília, trabalhando em seu escritório. Durante a visita de Farida e Saad ao Brasil, tivemos a oportunidade de fazer contato com ele que imediatamente lembrou-se do casal e da história ocorrida há 28 anos atrás. 


Foram muitos os colaboradores que trabalharam no projeto Iraque. Alguns aparecem na foto abaixo, mas não vou citar nomes para não incorrer no erro de eventualmente esquecer alguém. Faço aqui um agradecimento especial aqueles que me ajudaram a resgatar estas memórias. Tenho certeza o projeto Iraque continua na mente e coração de todos nós.






  
                        Sukran! (Obrigado)
                       
                        Waldey Sanchez

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